Skip to content
← Mitos e Falácias

Mitos e Falácias — desmontagem de ideias feitas com dados públicos

AquecimentoBombas de CalorPreços

Mito: “Aquecer a gás natural é mais barato do que com uma bomba de calor”

Por quilowatt-hora de calor entregue, o gás perde sempre. Mas há uma ressalva real: sem apoios, o preço de compra mais baixo de uma caldeira ainda ganha ao fim de 20 anos.

EP

Eletrificar Portugal

Observatório da Transição Energética · ~8 min de leitura

É a pergunta que qualquer pessoa a pensar em trocar a caldeira faz primeiro: vai custar mais ou menos a aquecer a casa? A resposta simples — “o gás é mais barato do que a electricidade por kWh, logo é mais barato aquecer a gás” — ignora um facto técnico decisivo: uma bomba de calor não gasta um kWh de electricidade para produzir um kWh de calor. Produz três a quatro vezes mais.

1. O que realmente importa é o custo por kWh de calor entregue

Uma bomba de calor ar-água tem, em condições portuguesas reais, um COP (coeficiente de desempenho) típico de 3,0 a 4,6 — menor com radiadores antigos a alta temperatura, maior com pavimento radiante. Isto significa que 1 kWh de electricidade rende 3 a 4,6 kWh de calor. Uma caldeira de condensação, no melhor caso, aproveita cerca de 94 % da energia do gás que queima — nunca mais do que 1 para 1.

Com os preços regulados actuais (electricidade ~€0,1654/kWh; gás ~€0,06 a €0,10/kWh consoante o mercado), o cálculo é directo: o calor de uma bomba de calor custa entre €0,036 e €0,055/kWh — sempre mais barato do que os €0,064 a €0,104/kWh de uma caldeira a gás.

2. A ressalva real: o preço de compra ainda pesa mais, sem apoios

Uma tese de mestrado do ISEP (2025), com equipamento e preços portugueses reais — uma casa unifamiliar de 100 m², carga de 10 kW —, encontrou algo que vale a pena dizer com clareza em vez de esconder: apesar do custo de energia mais baixo, a caldeira a gás continua a ser a opção mais barata ao fim de 20 anos neste cenário específico. A razão não é a eficiência — é o preço de compra: cerca de €6 744 instalada para a bomba de calor, contra apenas €2 249 para a caldeira.

A diferença de compra (~€4 500) demora mais de 20 anos a ser compensada pela poupança anual em energia (~€110/ano) — na ausência de qualquer apoio. Combinar a bomba de calor com painel fotovoltaico reduz significativamente essa distância (o custo anual cai para €22), mas ainda não chega a inverter o resultado sem subsídio.

3. Os apoios existem — mas estão actualmente suspensos entre fases

O programa e-Lar (Fundo Ambiental/PRR) subsidiava directamente a substituição de gás por bomba de calor — até €1 683 para agregados vulneráveis, até €1 100 para os restantes. Um apoio desta dimensão fecha, ou quase fecha, a diferença de compra identificada pela tese do ISEP. Mas as candidaturas fecharam em Março de 2026, e uma nova fase só está prevista para 2027, através do Plano Social Climático europeu.

O que é verdade — e onde a preocupação tem fundamento

O gás é genuinamente mais volátil. A tarifa regulada de gás subiu 8,2 % num único ano de gás (2022-23) durante a crise energética europeia — um risco estrutural que a tarifa de electricidade, com componentes mais regulados, amortece parcialmente. E vale a pena lembrar: apenas uma minoria de casas portuguesas aquece a gás — dois terços aquecem a lenha, segundo o inquérito INE/DGEG de 2020.

Em síntese

Por quilowatt-hora de calor entregue, a bomba de calor é sempre mais barata do que o gás — entre €0,036 e €0,055/kWh contra €0,064 a €0,104/kWh. Mas sem apoio, o preço de compra mais baixo de uma caldeira ainda vence ao fim de 20 anos, segundo uma tese académica portuguesa com equipamento e preços reais. Os apoios do e-Lar fechavam essa diferença — mas estão actualmente suspensos, à espera de uma nova fase em 2027.

Fontes: Tiago Felícia / ERSE — tarifas reguladas de electricidade e gás (2026) · France Air — ficha técnica COP/SCOP · Francisco Rocha, dissertação de mestrado ISEP (Jun 2025), recipp.ipp.pt · Fundoambiental.pt — programa e-Lar (fases 2025-26) · Deco Proteste — fim do Vale Eficiência e novo programa 2027 · INE/DGEG — Inquérito ao Consumo de Energia no Sector Doméstico 2020.