Mitos e Falácias — desmontagem de ideias feitas com dados públicos
Mito: “Portugal precisa de energia nuclear para conseguir descarbonizar por completo”
Portugal nunca teve uma central nuclear — não por lei, mas por rejeição popular. E retomar a ideia hoje esbarra num argumento aritmético: as últimas centrais construídas no Ocidente custaram 2,5 a 4 vezes mais do que orçamentado, e demoraram 13 a 17 anos.
Eletrificar Portugal
Observatório da Transição Energética · ~10 min de leitura
É um argumento que ressurge sempre que a variabilidade das renováveis se torna visível: se o sol não brilha nem o vento sopra sempre, não seria mais sensato ter uma fonte de energia “a sério”, sempre ligada, como o nuclear? Portugal, sem nenhuma central nuclear e sem nenhuma indústria nuclear própria, seria o ponto de partida ideal para testar esta ideia com números reais em vez de intuição.
1. Portugal já tentou — e um protesto popular travou o projecto
Nos anos 1960 e 1970, avançou um plano para construir uma central nuclear em Ferrel, perto de Peniche. A 15 de Março de 1976, entre 1500 e 2000 moradores marcharam até ao local de prospecção e convenceram os técnicos a abandonar os trabalhos; o projecto foi formalmente cancelado em 1982. O terreno — cerca de 150 hectares — é hoje hortas comunitárias.
Não existe nenhuma proibição constitucional identificada — apenas um consenso político sustentado, reforçado em 2021, quando Portugal assinou, com mais seis países da UE, uma declaração na COP26 para excluir o nuclear do financiamento verde europeu.
2. O argumento decisivo não é ideológico — é aritmético
As últimas centrais nucleares construídas no Ocidente mostram um padrão consistente: Hinkley Point C (Reino Unido) — de £18 mil milhões para até £48,7 mil milhões (2,7×), com ligação não antes de 2030-31. Flamanville 3 (França) — €3,3 mil milhões orçamentados, €13,2 mil milhões só de construção (4×), 17 anos até à ligação. Vogtle 3&4 (EUA) — de 14 para quase 37 mil milhões de dólares, ~15 anos. E estes números são de países com indústria nuclear já estabelecida — reguladores experientes, cadeia de fornecimento própria. Portugal, a começar do zero, deveria esperar pior, não melhor.
E o custo por MWh reflecte isto: segundo a Lazard (Junho de 2025), o nuclear custa hoje entre $141 e $220/MWh, contra $50 a $131/MWh do solar combinado com armazenamento — mesmo o valor mais barato do nuclear é cerca de 1,6× o valor mais caro do solar+armazenamento.
3. Os pequenos reactores modulares não são um atalho
Os SMR são frequentemente apresentados como a resposta ao problema do custo e do prazo. Mas nenhum SMR está a operar comercialmente no Ocidente em 2026. O projecto-bandeira dos EUA — NuScale/UAMPS, no Idaho — foi cancelado em Novembro de 2023, depois de o custo estimado subir de cerca de $4,2-5,3 mil milhões para $9,3 mil milhões, e o custo projectado por MWh subir 53 %. Análises independentes (como a IEEFA) descrevem os SMR como “ainda demasiado caros, lentos e arriscados”.
4. A própria Espanha está a desmantelar a sua frota nuclear
Espanha, com quem Portugal partilha rede síncrona, tem 7 reactores (~7,1 GW) — mas um calendário de encerramento confirmado entre 2027 (Almaraz I) e 2035 (Vandellós II, Trillo). O país com a frota nuclear a sério na Península está a ir na direcção oposta à que o mito sugere que Portugal deveria seguir.
O que é verdade — e onde a preocupação tem fundamento
Existe uma pergunta legítima em aberto, feita por uma voz credenciada. Bruno Soares Gonçalves, presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IST), argumenta que Portugal nunca fez uma análise rigorosa do custo total de sistema — backup, armazenamento e reforço de rede — de um cenário só com renováveis, comparado com um cenário misto. Propõe 2 a 5 GW de nuclear a partir de ~2035, usando como referência de custo o projecto Barakah dos Emirados (~€8 mil milhões/GW) — uma referência mais optimista do que a experiência ocidental recente sugere realista para um país sem indústria nuclear própria, mas a pergunta metodológica em si — “fizemos mesmo essa análise?” — é justa e não deve ser descartada.
Mesmo no cenário mais optimista, o prazo não ajuda a meta de 2030. Nenhuma proposta séria aponta para antes de 2035 — mais de meia década depois de Portugal já operar com 71-80 % de renovável na rede. A IEA, no seu “Portugal 2026 Energy Policy Review”, recomenda ferramentas de flexibilidade (armazenamento, resposta da procura, desenho de mercado) e um mecanismo de capacidade apenas “se avaliações de adequação demonstrarem um risco real de segurança de abastecimento” — não recomenda nuclear.
Em síntese
Portugal nunca teve nuclear por rejeição popular, não por lei — e retomar a ideia hoje esbarra na experiência ocidental recente: sobrecustos de 2,5 a 4 vezes, prazos de 13 a 17 anos, e um custo por MWh muito acima do solar com armazenamento. Os SMR não são um atalho comprovado, e a própria Espanha está a desmantelar a sua frota. Fica uma pergunta legítima em aberto — o custo total de um sistema 100% renovável nunca foi rigorosamente calculado para Portugal —, mas isso é uma lacuna de análise, não uma prova de que o nuclear é a resposta.
Fontes: Wikipédia PT, Gazeta das Caldas — história da Central Nuclear de Ferrel · ECO News, Renascença, Público — declaração de Portugal na COP26 (2021) · NucNet, Construction Wave — Hinkley Point C · World Nuclear News — Flamanville 3 · Georgia Public Broadcasting, nuclearcosts.org — Vogtle 3&4 · Lazard — “LCOE+” report (Jun 2025) · IEEFA, E&E News — cancelamento do NuScale/UAMPS · World Nuclear Association, NucNet — calendário de encerramento nuclear espanhol · Jornal Económico, Renascença — propostas de Bruno Soares Gonçalves · IEA — “Portugal 2026” Energy Policy Review.