Mitos e Falácias — desmontagem de ideias feitas com dados públicos
Mito: “As bombas de calor não funcionam bem em Portugal, sobretudo em casas antigas”
Este artigo é sobre adopção, desempenho e fiabilidade — não sobre custo. (O custo de aquecer a gás vs. bomba de calor tem o seu próprio artigo, aqui.) A adopção já não é marginal, e o argumento do frio não resiste aos dados climáticos oficiais.
Eletrificar Portugal
Observatório da Transição Energética · ~9 min de leitura
Duas versões diferentes deste receio circulam em conversas de café: que as bombas de calor “não aguentam o frio”, e que não conseguem aquecer devidamente as casas antigas e mal isoladas que dominam o parque habitacional português. São afirmações testáveis — e os dados oficiais, tanto climáticos como de mercado, respondem a ambas com clareza.
1. A adopção já não é marginal
Portugal tinha cerca de 277 mil bombas de calor instaladas em 2022, segundo o JRC (Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia) — com vendas de 40 310 unidades nesse ano, um crescimento de 24 % face a 2021. E, ao contrário da tendência europeia, Portugal foi um dos únicos três mercados do continente (com a Irlanda e o Reino Unido) a continuar a crescer em 2024, quando o mercado europeu alargado caiu cerca de 21 a 23 %.
2. O argumento do frio não resiste aos dados climáticos oficiais
A generalidade dos equipamentos vendidos em Portugal está preparada para operar até -25 °C. Mesmo na região mais fria do país continental — Bragança, Trás-os-Montes —, a normal climatológica oficial do IPMA (1991-2020) regista uma mínima absoluta recorde de apenas -10,2 °C, com uma mínima média de Janeiro de apenas 0,4 °C. A região mais fria do país nunca se aproxima, por uma margem larga, do limite operacional dos equipamentos.
Os “-24 °C” que por vezes saem nas notícias sobre a Serra da Estrela referem-se a sensação térmica com vento, não à temperatura real do ar — no mesmo evento noticiado, a temperatura do ar rondava os -9 °C. É uma distinção que muda completamente a conclusão técnica, e que raramente é feita com clareza na cobertura mediática.
3. Casas antigas: um problema de custo e dimensionamento, não de “não funciona”
Aqui está a parte onde o mito tem uma base real: 60 % dos edifícios portugueses foram construídos antes de 1990, antes de existir qualquer regra térmica de construção, segundo dados do JRC/Hotmaps. Mas a própria Comissão Europeia resume a conclusão técnica correcta numa frase: “as bombas de calor podem aquecer a maioria dos edifícios, mas funcionam melhor em edifícios eficientes.” Não é que deixem de funcionar numa casa mal isolada — é que custam mais a operar, e podem precisar de um equipamento maior.
A União Europeia já tratou esta questão como resolvida a nível de política: a Directiva EPBD (em vigor desde Maio de 2024) obriga ao fim dos incentivos a caldeiras a combustíveis fósseis novas a partir de Janeiro de 2025, e a um abandono completo até 2040.
O que é verdade — e onde a preocupação tem fundamento
Há obstáculos práticos reais e específicos, distintos do argumento do frio ou da habitação antiga. Condomínios podem legalmente recusar a instalação da unidade exterior por razões de fachada ou ruído. Edifícios classificados enfrentam restrições genuínas — ainda que existam soluções, como mostra um palácio português património da UNESCO já reconvertido com sucesso. E substituir radiadores antigos por modelos de baixa temperatura é, por vezes, necessário para um desempenho óptimo, embora não exista dado que quantifique com que frequência isso acontece em Portugal.
A comparação de fiabilidade assenta sobretudo em fontes internacionais. O consenso do setor — bomba de calor a durar tipicamente 20 ou mais anos contra 10 a 15 de uma caldeira a gás — vem maioritariamente de fabricantes e instaladores do Reino Unido. Não existe uma estatística de avarias auditada e específica para Portugal, nem dados publicados pela DECO, ERSE ou APIRAC sobre taxas de reclamação — uma lacuna a assinalar com honestidade, não a esconder.
Em síntese
A adopção de bombas de calor em Portugal é real e está a crescer mais depressa do que na maioria da Europa. O argumento do frio não se sustenta: a região mais fria do país nunca se aproxima do limite operacional dos equipamentos. A habitação antiga é, de facto, um desafio real — mas de custo e dimensionamento, não de viabilidade técnica. Os obstáculos genuínos são outros, mais específicos: condomínios, edifícios classificados, e uma comparação de fiabilidade que ainda depende de dados internacionais em vez de portugueses.
Fontes: JRC (Comissão Europeia) — “Portugal: Status of the Heat Pump Market,” Country fiche 2024 (JRC137131) · IPMA — “Normal Climatológica – Bragança 1991-2020” · EHPA — relatórios de mercado europeu 2024-2026 · Comissão Europeia — guia EPBD/Ecodesign sobre fim de incentivos a caldeiras fósseis (Out 2024) · Notícias ao Minuto, Diário de Viseu — esclarecimento sobre sensação térmica na Serra da Estrela · DECO Proteste — guia “Como escolher bomba de calor.”